sexta-feira, 27 de março de 2009


O Nome da Salvação


"Em nenhum outro há salvação, pois também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos"

Atos 4.12



A afirmação contida no título completo de Jesus é que ele é Salvador. Embora o vocabulário da salvação tenha um sabor desagradável para muita gente hoje, nós não podemos desistir dele de maneira nenhuma. Afinal de contas, o Cris­tianismo é essencialmente uma religião de resgate; ele anuncia boas novas de salvação.
Agora, "salvação" é uma palavra ampla, que abrange a totalidade do propósito redentor de Deus para suas cria­turas alienadas. Em uma palavra, salvação é libertação, e tem aspectos positivos e nega­tivos. Ela inclui libertação do justo julgamento de Deus para os nossos pecados; libertação da nossa culpa e da nossa consciência culpada; libertação para um novo relaciona­mento com ele, no qual nos tornamos filhos seus, recon­ciliados e perdoados, e passamos a conhecê-lo como nosso Pai. E libertação da amarga escravidão da vida sem sentido para um novo senso de propósito na nova e divina sociedade do amor, em que os últimos são os primeiros, os pobres são ricos e os mansos, herdeiros. E libertação da escura prisão de nosso próprio egocentrismo para uma nova vida de auto-realização através de serviço altruísta e abnegado. E um dia ela incluirá libertação da futilidade da dor, da corrupção e da dissolução, para um novo mundo de imor­talidade, beleza e gozo indizível. Tudo isso — e muito mais! — é "salvação".
Foi para garantir estas preciosas bênçãos que Jesus Cristo veio a este mundo, morreu na cruz e ressuscitou. Foi ele que tomou a iniciativa: "o Filho do homem veio pura buscar e salvar o perdido".[1]
Ele se comparou a um pastor de ovelhas que deixou o resto de seu rebanho a fim de ir atrás daquela que se havia perdido. Longe de abandoná-la, na esperança de que ela pudesse sair balindo e tropeçando até encontrar o caminho de volta para casa, ele arriscou a própria vida para ir à procura dela.[2] Na verdade, "o bom pastor" deu a sua vida por suas ovelhas.[3] Deus, em Cristo, assumiu o nosso lugar, a fim de que pudéssemos ser perdoados e feitos nova criação. E então ele foi res­suscitado dos mortos em um evento sobrenatural, a fim de reverter o veredito humano sobre ele e de vindicar sua pessoa divino-humana e sua obra salvadora.
Isto também é singular, um fato único. Todo o conceito de um Deus gracioso — que se recusou a ser conivente com os nossos pecados, como também a condenar-nos por eles; que, ao invés disso, tomou a iniciativa de nos resgatar; que se entregou à vergonha e sofrimento da morte na cruz e que quebrou o poder da morte através de sua ressurreição — não tem paralelo em outras religiões.
O Budismo considera a situação humana mais através do sofrimento do que do pecado, como também no "desejo", que ele considera a raiz do sofrimento. A libertação só pode vir pela abolição do desejo por intermédio do esforço próprio. Não existe Deus nem Salvador. "Lutar sem cessar" foram as últimas palavras de Buda aos seus discípulos, antes de morrer.
O Hinduísmo filosófico situa o nosso problema no maya, geralmente entendido como a "ilusão" da nossa experiência no tempo e no espaço. O Hinduísmo popular, por sua vez, ensina a inflexível doutrina do karma, ou seja, a retribuição através da reencarnação. Cada pessoa deve comer o fruto de seus próprios erros, seja agora, seja no futuro. Do infindável ciclo (samsara) de renascimentos ou reencar­nações não há escapatória pelo perdão, mas somente por aquela libertação final chamada Nirvana, que significa a extinção do ser individual e a absorção em uma realidade divina impessoal (Brahman).
O Judaísmo continua, evidentemente, a ensinar ao pe­nitente a possibilidade do perdão, conforme prometido no Antigo Testamento, mas nega que Jesus seja o Messias e também que a sua morte expiatória seja o único fundamen­to para o perdão de Deus. Para o meticuloso e honesto estudioso judeu C. G. Montefiore, a "grandeza e origina­lidade" de Jesus reside em sua nova atitude para com os pecadores. Ao invés de evitá-los, ele agia, indo à procura deles. Os rabis diziam que Deus acolhe os pecadores que voltam para ele; mas eles nunca haviam falado de um amor divino que toma os primeiros passos para ir buscá-los e salvá-los:
Esta busca direta pelo pecador e esse apelo direto a ele são novas e comoventes notas de alta importância e sig­nificância. O bom pastor que vai em busca da ovelha perdida, e que a reclama e se alegra por ela, é um dado novo...[6]
O Islamismo proclama claramente a misericórdia de Deus. Cada um dos 114 suras (capítulos) do Alcorão é introduzido com as palavras "Em Nome de Alá, o Com­passivo, o Misericordioso". Mas ele não traz nenhuma demonstração histórica sacrificial que evidencie a sua misericórdia. E quando se pesquisa mais a fundo, percebe-se que Alá é misericordioso para com o merecedor, aqueles que oram, dão esmolas e jejuam no Ramada. Não há sequer uma mensagem para os pecadores que merecem julgamen­to, a não ser que eles hão de receber o julgamento que merecem.
Não resta dúvida alguma de que a principal diferença entre o Cristianismo e as religiões do mundo (e a principal pedra de tropeço que elas podem encontrar nele) é a cruz. Ela humilha todo orgulho e acaba com qualquer esperança de salvação própria. Fala também da incalculável genero­sidade do amor de Deus em prover este caminho de salvação. Foi aí que o líder cristão japonês Toyohiko Kagawa (que morreu em 1960) encontrou a unicidade do Cristianismo:
Sou muito grato pelo Xintoísmo, o Budismo e o Confucionismo. Eu devo muito a estas religiões... Só que as três religiões fracassaram completamente em minis­trar as mais profundas necessidades do meu coração. Eu era um peregrino viajando por uma longa estrada que não tinha volta. Estava exausto. Meus pés estavam feridos. Eu vagava através de um mundo escuro e desanimador, onde as tragédias eram abundantes... O Budismo ensina a compaixão... mas, desde o princípio dos tempos, quem é que declarou: "Este é o meu sangue da aliança que é derramado por muitos para remissão dos pecados"?[8]
Stott, John
Ouça o Espírito, ouça o mundo / John Stott; [tradução Silêda Silva Steuernagel]. - 2. ed. - São Paulo : ABU Editora, 2005.
Versão para Computador, p. 136 e 137


[1] Lc 19.10
[2] Lc 15.1-7
[3] Jo 10.11, 15
[4] Extraído de um artigo publicado em Church of England Newspaper, 28/3/76.
[5] Emil Brunner, The Mediator (1927; ET Westminster, 1947), pp. 291-299
[6] C. G. Montefiore, The Synoptic Gospels (Macmillan, 2nd. ed., 1927), vol. I, pp. cxviii, 55; vol. II, pp. 520-552.
[7] S. C. Neill, Crises of Belief/ Christian Faith and Other Faiths, p. 87
[8] T. Kagawa, Christ and Japan (SCM, 1934), pp. 108, 113

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